Minha vida como viciado começou como tantas outras. Certo dia, em uma rodinha de amigos, alguém tirou do bolso um vidrinho. "Isso aqui é muito bom", disse ele. Vendo que todos na roda apreciavam, também resolvi experimentar, e assim comecei um vício que nunca mais consegui largar!
O vidrinho em questão continha uma substância que é usada por boa parte da população hoje em dia: pimenta! Aquela primeira experiência com sabores picantes afetou-me de tal forma, que hoje é raro eu não adicionar pimenta em quase tudo que como. Para os não-iniciados, eu recomendo "Jimmi Taco" ou "Toscano", são as melhores!
Curiosamente, por trás das pimentas, há uma característica muito intrigante do nosso organismo. Normalmente ensina-se que nosso corpo possui cinco sentidos: visão, audição, tato, olfato e paladar, mas na verdade temos muito mais que isso.
Usualmente esquece-se do sentido de equilíbrio, proporcionado pelo labirinto, dentro do ouvido; ou então do sentido proprioceptor, efetuado pelos tendões de Golgi, presentes dentro das células musculares, e que medem a força aplicada ao músculo.
Mesmo o paladar não é um sentido único. Os sabores que sentimos são proporcionados por quatro tipos diferentes de sensores, que quantificam sabores doces, salgados, azedos e amargos. Algumas pesquisas, ainda não confirmadas, indicam que pode haver um quinto receptor, para medir a quantidade de glutamato monosódico (aji-no-moto).
Dessa forma, tudo que provamos é uma combinação desses quatro sabores básicos, desde a torta de frango da minha mãe até um churrasco de cachorro coreano. Mas existe uma exceção a essa regra: a pimenta.
O sabor ardido da pimenta não ativa nenhum dos quatro receptores básicos. Na verdade, o princípio ativo da pimenta ativa os sensores de dor da língua! Isso pode ser facilmente comprovado se percebermos que, se você esfregar uma pimenta ardida na sua pele, vai arder um bocado!
Essa característica curiosa explica-se devido ao fato das terminações nervosas dos receptores de dor da língua estarem ligados na região de paladar do cérebro, o que nos confunde e nos faz achar que se trata de um sabor diferente.
Mas a grande lição que se deve aprender de tal fato é que nunca devemos ingerir pimenta em demasia. A dor fica camuflada como sabor na região inicial do sistema digestivo, mas, se por acaso a pimenta chegar ao outro extremo do tubo digestivo, eu garanto que não vai ser divertido quando ela tentar sair!