O Maracugênio

Estava eu calmamente tomando suco de maracujá no meu quarto, hoje à tarde, quando, de repente, ouço meu pai berrar lá da sala:

Pai: "Ei Ricardo! Quanto é 145+284?"

Ricardo: "Não ouvi o que você falou, repete mais alto!"

Pai: "QUANTO É 145+284?"

Ricardo (instantaneamente): "É 429!"

Pai: "Como você faz essas contas tão rápido?"

Ricardo: "É que eu tomo Suco de Maracujá, que estimula a mente e o corpo!"

Eu até consigo fazer contas rapidamente de cabeça, mas não tão rápido quanto meu pai acha que faço. Tem um truque envolvido, e não era o maracujá. O fato é que eu tenho uma audição muito boa, e entendi perfeitamente o que meu pai tinha dito da primeira vez. Quando eu o forcei a repetir a pergunta, ganhei tempo suficiente para fazer a conta, de modo que pareceu que eu tinha resolvido instantaneamente!

Na verdade, por mais veloz que um ser humano seja, fazer contas é uma das coisas que computadores fazem muito mais rápido que humanos. Para entender por que isso acontece, basta verificar como o cérebro se comporta nessas situações.

Quando você faz uma conta de cabeça, você está usando o mesmo método que o computador usa, e que também é o mesmo método que te ensinaram no primário: soma-se os dígitos da direita, depois os dígitos imediatamente à esquerda destes (não esquecendo de checar se existe o "vai um"), e assim por diante até acabarem os digitos.

Como existe o "vai um", o cálculo dos digitos tem que ser feito em série. E isso é exatamente o motivo do cérebro ser mais lento.

Neurônios individuais são bastante simples, a única operação que eles conseguem fazer é a comparação. Eles comparam se o valor de entrada nos dendritos é maior que um certo valor limite, e caso seja, disparam um pulso elétrico no axônio (esse pulso é conhecido como potencial de ação).

Porém, as membranas dos axônios possuem uma propriedade conhecida como "período refratário", que impede que dois potenciais de ação sejam disparados com intervalo menor que um milisegundo. Isso significa que a maior freqüência que o cérebro pode operar é de 0.001 MHz (compare isso com um Pentium 600 MHz!!)

Ainda assim, existem operações que o cérebro faz muito mais rapidamente que um computador. Por exemplo, reconhecer rostos. Se vocês me mostrarem uma foto de um homem, eu não demoro mais de meio segundo para dizer se esse homem é o meu pai ou não. Já os computadores podem demorar várias horas para dar a resposta.

A diferença de um caso para o outro é que, no reconhecimento de faces, existem várias características que podem ser analisadas em paralelo. Por exemplo, eu posso checar se o nariz é arredondado, se o cabelo é escuro, se as sobrancelhas são grossas, e um número absurdamente grande de outros detalhes.

Um computador com um único processador teria que examinar todas essas características em série, uma após a outra. Já o cérebro avalia todas ao mesmo tempo. Existem atualmente computadores paralelos que podem fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Em Manchester, eu trabalhei com um computador de 576 processadores. Mas, mesmo assim, nada se compara ao cérebro, que possui alguns bilhões de neurônios.

É claro que tarefas como reconhecimento de objetos não são triviais, mas os avanços nessa área são bastante intensos atualmente. Já existem linhas industriais que utilizam computadores que fazem inspeção visual de peças defeituosas.

Por outro lado, existem coisas que computadores simplesmente não fazem. Por exemplo, computadores ainda não conseguem sentir o sabor do suco de maracujá, e muito menos decidir se acham o tal sabor bom ou ruim. Por enquanto, o maracujá é exclusividade dos humanos.

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Autor: Ricardo Bittencourt
Data: 21/5/2000
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