Antes do Pokèmon, dos Power Rangers, dos Cavaleiros do Zodíaco, e antes até mesmo das Tartarugas Ninja, o que fazia sucesso entre a garotada eram os seriados japoneses tokusatsu, como Jaspion e Changeman. Além do pico de audiência, também existiam bonequinhos, fantasias, álbuns de figurinhas e tudo o mais que você possa imaginar.
É claro que, com os sucesso dessas séries, a rede Manchete não demorou muito para importar outras. A primeira a chegar foi Choshinsei Flashman (no Brasil, Comando Estelar Flashman), que narrava a história de cinco crianças que foram raptadas e levadas de nosso planeta, para retornar vinte anos depois e combater invasores alienígenas.
Entretanto, na pressa para lançar a série, a rede Manchete começou a exibi-la quando estavam dublados só os primeiros dez episódios. Repetidos à exaustão, esses dez episódios iniciais foram decorados por todos que assistiam!
Um desses episódios falava sobre um monstro espacial que tinha o poder de inverter a visão das pessoas. Após serem atingidos pelo monstro, os integrantes do Flashman passaram a enxergar tudo de ponta-cabeça, ficando desorientados e perdendo as batalhas.
Para vencer o monstro, um dos Flashman lembra de seu treinamento em outro planeta, quando seu mestre havia lhe ensinado a lutar plantando bananeira. É claro que lutando assim o campo de visão desinvertia, e, após ensinar a técnica para os amigos, o grupo consegue finalmente derrotar o monstro e recuperar a visão normal!
Por trás dessa história bizarra, tem um conceito muito curioso, que é a dissociação cognitiva. É um fato conhecido que o corpo humano possui bem mais de cinco sentidos, entre eles o sentido de equilíbrio. Embora o órgão principal desse sentido seja o labirinto (no ouvido interno), existem outros sensores que também nos ajudam a ficar de pé.
Por exemplo, existem dentro dos nossos músculos células chamadas proprioceptores, que são capazes de medir qual a força aplicada a cada músculo. Com base nessas forças, o cérebro consegue calcular o quanto estamos inclinados em relação ao chão.
Porém, com os instrumentos corretos, é possível enganar essas células. A maneira mais fácil é amarrar um vibrador no calcanhar: as vibrações ativam os proprioceptores, que indicam para o cérebro que você está caindo.
Entretanto, o labirinto não é afetado pelo vibrador, o que significa que estão chegando duas informações conflitantes no cérebro. Esse fenômeno é chamado dissociação cognitiva, e, no caso mais usual, desencadeia um processo crônico de riso, de tal modo que a pessoa não consegue parar de rir até que o vibrador seja desligado.
Outra maneira de provocar a dissonância é invertendo o campo visual. Com o auxílio de óculos especiais acoplados a um sistema de espelhos, é possível fazer com que uma pessoa enxergue sempre de ponta-cabeça. Isso causa, é claro, o acesso de riso, seguido de desorientação.
Curiosamente, experiências feitas com voluntários adultos mostram que a pessoa acaba se acostumando com a visão invertida. Depois de uma semana com os óculos inversores amarrados na cabeça, as pessoas passam a se movimentar naturalmente, como se não houvesse nada de errado. Experimentos feitos com ratos, sob as mesmas condições, mostram que o cérebro desinverte as imagens internamente.
Duas conclusões rápidas podem ser tomadas dessa verificação: a primeira, que é errado acreditar que adultos são menos capazes de aprendizado que as crianças. Afinal, o cérebro se rearranja internamente em apenas uma semana para adequar-se às novas condições visuais. A segunda conclusão é que os Flashman não precisavam lutar plantando bananeira: bastava esperarem uma semana antes de lutar com o monstro!