Duas personalidades e uma história

Capítulo 1

Autora: Claudia K.
Data: 20/6/2003

Alessandra desceu as escadas de casa correndo para atender a porta:

- Alguém atende essa porta, droga!! Eu estou atrasada para o trabalho!!

Ninguém respondeu e ela continuou descendo as escadas, derrubando a bolsa, a pasta e a escova de cabelo que segurava nas mãos. Abriu a porta e deparou-se com o entregador de jornal.

- Bom dia, seu jornal! - ele esfregava o jornal no rosto dela com o braço estendido.

- Obrigada, seu João. - ela esboçou um sorriso.

Uma voz de dentro da casa chamou a atenção de Alessandra:

- Querida, vamos! Estamos atrasados! Hoje é o dia do seu rodízio, eu tenho que deixar o Léo na escola e te levar para o escritório...Já tô indo para o carro com o Léo, corre!

Alessandra voltou para a escada, recolheu todos os objetos perdidos na corrida pelo jornal e sentou-se no último degrau. O dia seria longo....

Capítulo 2

Autor: Ricardo Bittencourt
Data: 23/6/2003

Este vai ser um dia muito corrido. Afinal, é o esperado dia do rodízio! Mas antes disso preciso por em ordem todos os papéis aqui do escritório... Este escritório de marcas e patentes foi responsável pela maior alegria de minha vida. Meu marido sempre trabalhou como radiologista, mas só soube que o aparelho de raio-X que ele operava tinha um vazamento depois de muito tempo exposto à radiação que emanava dali. Embora não tenha sofrido nenhum dano, recomendaram a ele que evitasse ter filhos... a chance de nascer uma criança com problema era muito alta.

Nosso sonho de ter um filho agora só seria possível com adoção. E quis o destino que surgisse um inventor com uma patente bastante curiosa. Ele queria patentear a tecnologia de criação do clone humano! Tudo foi mantido em segredo, é claro, mas o inventor era um desses solitários que não entendia nada de bebês. Nós nos oferecemos para adotar o garoto, e ele tem crescido saudável desde então. Nunca perguntamos de quem ele foi clonado... mas isso agora não importa. O Léo é o nosso filho e isso é tudo que precisamos saber.

Mas o escritório tem seu lado ruim também. O Hikaru, por exemplo. Ele é um japonês meio doido que toda semana aparece com um invento maluco. Essa semana ele resolveu patentear um relógio movido a gasolina. Com o tanque cheio, o relógio funciona por dez anos sem precisar dar corda nem trocar de bateria. Mas ele esqueceu que a fumaça do escapamento não é lá muito saudável! De qualquer maneira preciso arquivar a pasta com essa patente... mas... cadê a pasta?! Ah não! Acho que ela caiu no chão quando eu estava descendo a escada de manhã, e esqueci de pegá-la novamente! A essa altura não tem ninguém em casa... o jeito é pegar um táxi e ir pra lá correndo. Não vai dar nem sequer pra ler o jornal que peguei hoje de manhã!

Espero que dê pra fazer tudo a tempo. Afinal, é o dia do rodízio! Hoje finalmente meu livro será publicado, e a editora resolveu fazer o lançamento em uma churrascaria, pagando o rodízio para todos os convidados. Aqui fora do prédio o sol está brilhando forte... espero que a noite também esteja com um clima ótimo para que tudo saia perfeito no rodízio. Logo ali na esquina tem um ponto de táxi e... ai meu deus! Que barulho enorme foi esse? Uma explosão?! E bem no escritório?! Meus amigos estavam lá dentro, será que estão bem? Meu deus meu deus meu deus... se eu estivesse lá dentro, poderia ter sido atingida também! Vou chamar os bombeiros agora!!


Enquanto isso, observando de longe, seu João contempla o resultado de seu trabalho. O jornal explosivo que ele entregou de manhã detonou bem na hora. Seu chefe ficará satisfeito com isso... e a autora do livro profano que seria distribuído hoje nunca mais escreverá nada contra o grupo. Começa assim a Operação Limpeza.

Capítulo 3

Autora: Claudia K.
Data: 24/6/2003

Os bombeiros chegaram rápido e as pessoas foram retiradas aos poucos do prédio ainda em chamas. Alessandra viu um de seus funcionários sendo carregado até a ambulância:

- Alessandra, que bom que você está bem! Já faz mais de um mês que recebemos ameaças por causa do lançamento do seu livro, mas nunca imaginamos que um louco fosse capaz de explodir o prédio!

Ela manteve-se quieto por um tempo, chocada com a notícia. Como puderam esconder algo tão importante dela? E se foram capaz de colocar uma bomba no prédio onde ela trabalhava, o que ainda seriam capaz de fazer?

O primeiro pensamento que passou pela sua cabeça foi o de Léo na escola. Ela pegou o primeiro táxi que passou e seguiu direto para a escola onde o menino estudava.

Já dentro do táxi, ela ligou para o marido:

- Aconteceu uma coisa horrível, explodiram o escritório de patentes! Estou indo para a escola do Léo. Não, não sei ainda quem foi, mas acho que tem algo haver com o lançamento do meu livro.


A Diretora da escola prontamente chamou o menino na sala de aula.

- O que foi, mãe? Por que me chamou? Que mico...todo mundo vai rir de mim agora.

- Precisamos ir para casa, aconteceu algo grave. Seu pai vai nos encontrar lá.

- O que aconteceu, mãe? – o menino estava curioso.

- Eu ainda não sei, querido.

Capítulo 4

Autor: Ricardo Bittencourt
Data: 14/9/2003

Ao chegar em casa, Alessandra não entendeu muito bem quem eram aquelas pessoas ao lado do Jack, seu marido. Estavam ali uma garota loira e baixinha, de cabelos bastante encaracolados, e um rapaz de cabelos bem vermelhos, provavelmente pintados.

Jack: "Querida, que bom que vocês chegaram! Eu liguei pra polícia, pra avisar o que estava acontecendo. Esses aqui são os inspetores Gabrielle e César, eles vieram para nos ajudar."

Gabrielle: "Seu marido nos contou que seu escritório vinha recebendo ameaças pelo lançamento do seu livro... qual o conteúdo dele? Você faz denúncias graves? Mexe com os interesses de grandes corporações? Revela fatos que podem comprometer a imagem de poderosos?"

Alessandra: "Não... é um livro de receitas."

César: "Receitas?!?!!??!"

Alessandra: "Sim, receitas de churrasco com vinho. O lançamento seria em um rodízio hoje à noite, onde provaríamos os pratos..."

Gabrielle: "Então precisamos cancelar esse rodízio! Todos os convidados estão correndo perigo. Aliás, se o sabotador conhecia onde você trabalha, então deve conhecer onde você mora também... por isso nós vamos escoltar você e sua família para um local mais seguro, onde ficarão protegidos."

César: "Mas antes de levá-los, não podemos comer alguma coisa? O abrigo é longe, vai demorar para chegarmos lá, e toda essa história me deu fome."

Alessandra: "Se o senhor quiser, pode fazer um sanduíche ali na cozinha..."

César: "Você tem maionese?"

Alessandra: "Pode pegar ali na geladeira, tem pão no armário e guardanapos na máquina pendurada na parede."

César: "Curiosos esses guardanapos, eles são marrons, nunca tinha visto dessa cor."

Alessandra: "Ah, isso é coisa do Hikaru. Eu sempre fico com os inventos dele pra testar aqui em casa... Esse aí é um reciclador automático de papel, ele faz guardanapos a partir de papel higiênico usado, tudo na maior assepsia!"

César: "pffftttttt!!!"

Gabrielle: "De qualquer modo, temos que sair agora. Quanto mais demorarmos, maior a chance do sabotador te encontrar. Vamos!"


Enquanto isso, na praça central da cidade, seu João senta num banquinho, ao lado de um mendigo de roupas sujas e cheirando mal:

seu João: "Saudações, irmão José. A primeira fase da Operação Limpeza foi concluída com sucesso. A escritora profana foi eliminada em seu escritório de trabalho."

seu Zé: "Saudações, irmão João. Temo que sua empreitada não tenha sido tão boa quanto você imagina. Ela não estava dentro do prédio quando você o explodiu. Recebi informações confiáveis de que a escritora continua viva, e dirige-se agora para um abrigo."

seu João: "Incrível. Nesse caso, tomarei novas providências. Por que o chefe quer tanto impedir que esse livro seja lançado?"

seu Zé: "Como você sabe, nossa Ordem atua há mais de dois mil anos impedindo que certos conhecimentos secretos sejam redescobertos pela humanidade. Em seu livro, essa escritora descreve um dos inventos que passaram em seu escritório: um processo de criação de um vinho particularmente afrodisíaco. Mal sabe ela que esse é o mesmo vinho usado no passado pelo adoradores do deus Baco em suas orgias, os lendários bacanais. O processo de fermentação desse vinho não utiliza bactérias, mas sim Bacotérias! Esse processo não pode vir a público novamente!"

seu João: "Não se preocupe, eu já sei como acabar com ela."

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